quinta-feira, 1 de julho de 2021
Libertando os saberes teológicos
1. O Cristianismo que conhecemos e praticamos foi forjado a partir da Reforma do século XVI e das respostas da Igreja Católica a ela, desde a Cotnra-Reforma trentina até a auto-reforma iniciada com o Concílio Vaticano II, abandonada sem ser concluída, e retomada por Conferências Episcopais periféricas e, agora, pelo próprio Papa, proveninente de uma das periferias do mundo moderno.
2. Pois bem, esse mundo envelheceu e está agonizando, sua morte possui diferentes espaçotemporalidades, mas é inevitável. Que mundo era esse? O mundo do humanismo eurocêntrico, dos valores civilizacionais europeus que mesclaram a ganância do capitalismo, a violência da colonização, a arrogância da ciência com o discurso e a prática das Igrejas Cristãs. Após a Segunda Guerra 'Mundial', o eixo desse novo mundo mudou-se para os EUA e se prolonga no conflito entre vários pretendentes ao centro do mundo - União Europeia, Mundo Árabe, China, Brics (sic) ...
3. Esse mundo gerou movimentos de resistência, diversificados e dispersos, mas que podem ser pensados a partir de uma de suas tentativas de união, no slogan "Um Outro Mundo é Possível".Esses movimentos de resistência ao mundo 'impossível' em que vivemos continuam ativos e impactantes, mas em vários aspectos estamos atrasados em relação ao novo mundo que já começa a substituir o velho mundo.
4. Um outro mundo é possível precisa enfrentar, agora, um novo mundo que se ergue, soberanamente desdenhando a resistência e construindo o seu "novo mundo impossível", impossível para quem não possui ou controla as novas tecnologias, os novos armamentos, as novas formas de dominação e assujeitamento - que alguns chamam de biopolítica e outros preferem chamar de necropolítica.
5. Neste novo mundo impossível o Cristianismo precisa ser reinventado, pois não só fomos incapazes de romper com a aliança não-desejada com o velho mundo, como temos sido impotentes na resistência contra o novo mundo que se torna progressivamente hegemônico. No velho mundo, movimentos de reforma e renovação se constituíram e se multiplicaram desde o século XVI, mas todos foram, de vários modos, reincorporados e envelopados pela institucionalidade clerical e sua aliança, consciente ou inconsciente, com os poderes do velho mundo.
6. Os mais recentes movimentos teológicos e libertários de resistência, como as teologias contextuais e as teologias militantes de modo geral, foram - para efeitos práticos - anulados pelas reações da institucionalidade clerical e do novo mundo impossível, ainda resistindo bravamente à hegemonia das formas neoliberais de vivência da fé cristã - individualistas, consumistas, emotivistas, negacionistas, fundamentalistas. Tendo de enfrentar as forças avassaladoras da fé reduzida à mundanidade neoliberal, os movimentos renovadores e inovadores ainda mantêm agendas de enfrentamento do velho mundo - importantes, sim, embora insuficientes - e pouco se deram conta de que o novo mundo impossível já está substituindo o velho mundo contra que lutamos.
7. Novas palavras de ordem, tais como 'pós-colonialismo' ou 'decolonização' são importantes, mas ainda são movimentos gestados no e para o velho mundo. O novo mundo impossível torna pouco a pouco obsoletas essas percepções da realidade e suas respectivas militâncias. Nossos hábitos constituídos de pesquisa e epistemologia na exegese, na teologia (e nas ciências da religião, também) precisam ser repensados e substituídos por novos hábitos a serem constituídos já como formas de resistência contra o novo mundo impossível hegemônico, transcendendo inclusive os esforços valiosos, mas a meu ver insuficientes, das diversas epistemologias 'anti-coloniais'.
8. Hábitos pós-epistemológicos de construção de saber precisam ser constituídos. A semente desses novos hábitos já foi plantada - mas precisamos perceber as novas florações e permitir as novas frutificações das plantas que brotaram e teimosamente continuam a nos dizer para dar um passo a mais. A forma principal dessas sementes é a afirmação de que o saber academicamente constituído precisa ser subordinado ao compromisso ético-político nutrido pela fidelidade e fragilidade do Messias e não pelas necessidades e diretrizes da ação política per se. O desafio, para acadêmicos e acadêmicas, é a libertação da pesquisa da institucionalidade político-universitária em sua subordinação ao mercado das ciências e publicações assujeitadas pelo copyright.
9. O saber em geral e o teológico em particular precisam ser livres. O conhecimento precisa circular livremente e se tornar propriedade comum, não mais privatizada e com preços inacessíveis a quem mais precisa de participar na construção de saberes emancipatórios. Precisamos de uma teologia/práxis da libertação da pesquisa exegética, histórica, teológica, cientifica, para que possamos pensar um outro mundo possível nos lugares em que o saber 'teológico' pode e deve ser construído. O saber de experiência feito precisa ser ouvido ...
10. Novos lugares epistêmicos: a casa, a rua, a comunidade, a 'rede' em sua multimidialidade ... Lugares do assujeitamento, mas também da resistência, lugares da subjetivação emancipatória que devem subordinar o lugar acadêmico - que precisa abrir mão de sua hegemonia epistemológica e científica e atuar como parceiro e não como líder dos saberes/práxis teológicos libertadores.
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